Amores líquidos: por que essa geração não sabe mais amar?

Antigamente, os relacionamentos tinham outro ritmo. Existia a fase do encantamento, da conquista, da espera ansiosa por uma carta, um telefonema ou até a coragem de viajar horas só para encontrar alguém. Hoje, tudo parece reduzido a cliques, curtidas e respostas atrasadas no WhatsApp. O que antes se sustentava por meses, agora mal chega a três semanas.

A pressa virou o padrão. A mesma velocidade com que conhecemos alguém é a velocidade com que descartamos essa pessoa. Se o encontro não gera a satisfação imediata que o ego exige, o interesse esfria e junto vem o ghosting, o famoso sumiço sem explicação. A comunicação falha, a responsabilidade afetiva desaparece, e deixar de seguir no Instagram se tornou quase um divórcio digital.

Não vivi a época das cartas, poemas e declarações de amor, mas eu queria ter vivido. Como canta Taylor Swift, “tenho estado de joelhos, mude a profecia” às vezes, eu só queria que essa profecia de amores rápidos e frágeis fosse diferente.

Já tive encontros que gostei, que me fizeram acreditar que algo poderia florescer. Mas, de repente, sem motivo aparente, a conversa diminuiu. A insegurança bate: será que eu fiz algo errado? Será que não fui boa o bastante? Antes, as respostas chegavam em 10 minutos. Depois, passaram a demorar horas. E a gente percebe: não tem mais interesse.

No último encontro, por exemplo, ele me acompanhou até em casa. Foi tudo bem, ficamos juntos, rimos. No dia seguinte, silêncio. Quando tive coragem de perguntar por que estava diferente, a resposta foi vaga: “não fico muito no celular”. Mas antes, ele ficava. Então o que mudou?

Veio o segundo encontro, também bom. Mas, depois dele, a conversa praticamente acabou. Fica aquela sensação estranha de ter dado o melhor, ter se entregado… para acabar no nada. Até que chega o ponto final moderno: parar de se seguir nas redes. O nosso “divórcio” digital.

E é isso que dói: perceber que hoje se ama como se troca de aplicativo, com a mesma pressa de quem desliza a tela para o lado. O “eu adoro você” dura 24 horas. Amanhã, já é bloqueio, silêncio, frieza.

Não é que não existam mais pessoas dispostas a viver uma história bonita. Mas a lógica dos aplicativos e das redes sociais transformou o amor em consumo: experimenta-se rápido, enjoa-se rápido, descarta-se rápido. O imediatismo engole o romantismo.

Amar exige tempo, paciência, cuidado e coragem. Enquanto fugirmos disso em busca do próximo “match”, talvez continuemos acumulando histórias inacabadas, silêncios sem explicação e vazios que nenhuma curtida consegue preencher.

Está gostando do conteúdo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Todos os direitos reservados Charlotte. Desenvolvido por Board Digital