Na era da tecnologia, tudo ficou fácil. Inclusive fazer “feitiço”.
Eu não sei exatamente se funciona. Aliás, acho que no fundo eu sei que não. Mas, ainda assim, lá estava eu: colocando um copo com água e orégano em cima da geladeira para “energizar” a casa. Diziam que traria paz, prosperidade… não sei se trouxe isso, mas sei que criou um lodo digno de experimento científico e ainda entupiu minha pia.
Teve também o clássico: açúcar, perfume e o nome do cara. Porque, aparentemente, basta uma mistura digna de Meninas Superpoderosas — açúcar, tempero e tudo que há de bom — pra conquistar alguém que, na vida real, não responde nem uma mensagem.
E teve mais. Nome no papel, dobrar, queimar… o pacote completo.
No fundo, a pergunta nunca foi “isso funciona?”.
A pergunta real sempre foi: por que eu estou tentando isso?
Até onde vai o limite entre acreditar em algo e só querer sentir que está no controle?
Porque sejamos honestas: se uma pessoa não gosta de você naturalmente, ela não vai passar a gostar por causa de açucar, 3 borrifadas de perfume e papel queimado. Mas o ritual dá uma sensação perigosa, a de que você está fazendo alguma coisa, de que não está só esperando.
E talvez seja exatamente isso que prende.
Eu parei no meio de um desses “processos” e pensei:
“Eu realmente estou fazendo algo em que nem acredito, ligado a uma espiritualidade que não sigo, pra tentar conquistar alguém que não me escolheu?”
E aí bateu. Não foi iluminação espiritual. Foi realidade mesmo.
Talvez o problema não seja o feitiço.
Seja a esperança mal direcionada.
As redes sociais ajudam muito nisso. Elas vendem a ideia de que tudo pode ser resolvido com um passo simples: um ritual, uma simpatia, uma carta. E, claro, tem sempre alguém dizendo que funcionou.
E aí entram os cartomantes. Nunca vi tantos. Parece que, no meio do caos da internet, alguém segurando um baralho consegue oferecer mais conforto do que um psicólogo dizendo verdades que a gente não quer ouvir.
E eu entendo o porquê.
O psicólogo te confronta.
O cartomante, muitas vezes, te acolhe naquilo que você quer acreditar.
Mas existe uma diferença grande entre acolhimento e ilusão.
No fim das contas, nenhum feitiço fez ele mandar mensagem.
Nenhuma carta mudou o comportamento dele.
E nenhum ritual resolveu o que, na prática, já estava claro.
Mas tudo isso me ensinou uma coisa:
A gente não faz feitiço porque acredita no feitiço.
A gente faz porque ainda não quer aceitar a realidade.
E talvez o verdadeiro “ritual” seja outro, bem menos mágico e bem mais difícil:
Parar de insistir em quem não escolhe a gente.
Sem açúcar, sem perfume, sem orégano. Só realidade mesmo.