Depois de visitar as edições de 2025 e 2026, fiquei com uma pergunta: por que a Brasil Game Show parece estar perdendo parte do brilho que a tornou um dos eventos mais aguardados pelos fãs de games?
Quem gosta de games sabe que a Brasil Game Show já foi aquele evento para passar o ano inteiro esperando. Era a oportunidade de testar jogos, conhecer novidades, ver de perto grandes marcas da indústria e encontrar outras pessoas que também são apaixonadas por esse universo.
Por isso, visitar a BGS 2026 me deixou com uma sensação difícil de explicar. Consegui circular com tranquilidade, conhecer produtos interessantes e experimentar jogos que ainda não chegaram ao mercado. Mas saí com uma dúvida: o que aconteceu com a grandiosidade da BGS?
Não frequento a feira há cinco ou dez anos, então não vou fingir que acompanhei pessoalmente toda a sua trajetória. Minha comparação direta é entre as edições de 2025 e 2026. Mesmo assim, os números de anos anteriores e as mudanças na presença de grandes empresas ajudam a entender por que tanta gente está questionando os rumos do evento.
A BGS já bateu recordes de público. E agora?
Em 2022, a Brasil Game Show recebeu 327.678 pessoas, segundo números divulgados pela organização. No ano seguinte, chegou a 328.503 visitantes e anunciou um recorde de público. A edição de 2023 também teve 24 convidados internacionais e 12 jogos AAA disponíveis antes do lançamento, três vezes mais do que em 2022.
Esses números ajudam a lembrar de uma fase em que a feira mostrava crescimento e conseguia reunir grandes atrações. Em 2025, a organização informou que o evento recebeu 306.798 visitantes ao longo de quatro dias.
E em 2026? Até o momento, não encontrei um número oficial de público que permita fazer uma comparação direta com essas edições. Por isso, não dá para afirmar que a feira perdeu determinada quantidade de visitantes.
No terceiro dia da BGS 2025, lembro de corredores cheios, dificuldade para caminhar e filas enormes nos estandes. Em alguns momentos, parecia que havia gente demais para o espaço disponível. Já em 2026, a experiência foi bem diferente: consegui andar com tranquilidade, entrar nas lojas e tirar fotos nas ativações sem enfrentar a mesma disputa por espaço.
É claro que ninguém vai a uma feira querendo passar o dia inteiro espremido em uma multidão. Circular melhor é ótimo. A questão é que, desta vez, a tranquilidade também veio acompanhada da sensação de que faltavam atrações para ocupar e movimentar o espaço.
E essa percepção não apareceu apenas na minha visita. Outros portais que cobriram a edição de 2026 também apontaram a redução de grandes estandes, áreas pouco aproveitadas e mudanças na distribuição das atrações.
Cadê os grandes estandes e os jogos que todo mundo quer testar?
Parte da graça da BGS era encontrar várias empresas importantes no mesmo lugar. Não se tratava apenas de ver logotipos espalhados pelo pavilhão: os grandes estandes costumavam oferecer jogos, demonstrações, campeonatos e ativações que faziam o público querer ficar ali por um bom tempo.
Em 2026, a presença de algumas marcas tradicionais foi mais discreta ou inexistente na área de exposição. Xbox e PlayStation foram ausências bastante comentadas, assim como fabricantes de hardware e periféricos, entre eles NVIDIA, AMD, Intel, HyperX e Logitech G. A participação dessas empresas varia de uma edição para outra, mas a ausência de várias delas ao mesmo tempo muda bastante a experiência do visitante.
Nintendo, SEGA, Square Enix e Activision estavam entre os nomes que levaram demonstrações à feira, e a organização divulgou a possibilidade de jogar 18 títulos antes do lançamento.
Um dos motivos que me fazem gostar da BGS é justamente esse: poder experimentar um jogo antes de ele chegar às lojas. É uma oportunidade de conhecer novidades que, dependendo do título, só estariam disponíveis meses depois.
O espaço de Final Fantasy VII: Revelation, por exemplo, estava movimentado mesmo com várias telas disponíveis. A fila mostrava que existe interesse em testar jogos aguardados. Como o título ainda não havia sido lançado, também não era permitido filmar a demonstração.
Esse tipo de experiência é o que eu espero encontrar em uma feira de games. É o que faz o visitante pensar: “Ainda bem que vim”.
O problema é que, quando algumas das maiores empresas ficam de fora, a feira perde parte da variedade. E não basta ter um ou dois estandes fortes para substituir toda a programação que outras marcas poderiam oferecer.
Afinal, quanto custa colocar um estande na BGS?
Será que o custo de participar está pesando na decisão das empresas? É uma pergunta legítima, mas não dá para apontar o preço como causa confirmada das ausências sem ouvir as próprias marcas e a organização.
Seria interessante que a BGS explicasse melhor como está trabalhando para atrair expositores e o que mudou na relação com as grandes empresas. Afinal, os estandes não são apenas espaços publicitários. Eles também são parte daquilo que leva o público a comprar ingresso.
Se o visitante paga para ter contato com jogos e marcas que não encontra facilmente no dia a dia, a ausência de várias delas muda o valor percebido da experiência.
Mais espaço para comida do que para videogame?
Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de espaço dedicada à alimentação.
Não tenho nada contra praça de alimentação. Quem passa horas andando em uma feira precisa comer, beber água e descansar. O problema é a proporção. Parecia haver uma área enorme dedicada a mesas e comida enquanto atrações diretamente ligadas aos videogames tinham menos destaque.
E aí entra uma situação que me causou estranhamento: encontrar um estande de panelas associado ao chef Jacquin em uma feira de games.
Uma marca de outro segmento pode fazer sentido em um evento desse porte, especialmente se houver uma estratégia comercial por trás. Não é necessário que absolutamente tudo tenha um controle ou um personagem de videogame estampado. Mas, quando o espaço para atividades que não têm relação direta com jogos parece ganhar protagonismo, é natural perguntar se as prioridades estão bem distribuídas.
A alimentação também pesa no bolso. Um lanche simples podia chegar a cerca de R$ 80. Para quem já pagou ingresso, transporte e, às vezes, hospedagem para viajar até São Paulo, comer durante o evento pode virar uma despesa considerável.
Se existe espaço para ampliar a oferta comercial e alimentar, também deveria haver um cuidado especial para que as atrações gamer continuem sendo o centro da experiência.
Os brindes diminuíram, e a experiência também mudou
Pode parecer um detalhe perto da ausência de grandes empresas, mas os brindes também fizeram diferença na minha comparação entre as duas edições.
Em 2025, encontrei ativações que ofereciam itens mais interessantes, como peças de teclado, copos colecionáveis e pôsteres grandes. Em 2026, algumas ações davam apenas um adesivo.
Claro que ninguém deveria comprar um ingresso para uma feira de games esperando sair de lá com uma sacola cheia de presentes. Os brindes são um extra, não o motivo principal da visita. Ainda assim, eles fazem parte da experiência: você participa de uma atividade, interage com uma marca e leva para casa uma lembrança daquele momento.
Quando a recompensa é muito mais simples, a sensação é de que essa parte da experiência perdeu um pouco do encanto.
Por outro lado, as lojas tinham muitos produtos legais para quem gosta de cultura geek. Encontrei itens que não são tão fáceis de achar na minha cidade.
O que senti falta foi de uma seleção mais diferenciada. Havia produtos interessantes, mas também muitas coisas que podem ser encontradas em centros comerciais populares, como a região da 25 de Março, em São Paulo. A feira poderia aproveitar melhor a oportunidade de reunir produtos exclusivos, lançamentos e itens que o público dificilmente encontraria em outro lugar.
Os jogos independentes merecem sair dos cantinhos
Uma das coisas que me chamou atenção foi a pouca visibilidade da área de jogos independentes.
Só fui conhecer aquele espaço com mais calma no dia seguinte. E olha que eu estava justamente em uma feira de games, procurando coisas para jogar e conhecer. Se até quem vai com esse interesse pode demorar a encontrar a área, imagine quem não sabe que ela existe.
Ali havia desenvolvedores apresentando seus próprios jogos, projetos que mereciam atenção e oportunidades para o público experimentar algo diferente das grandes franquias. Alguns também divulgavam seus títulos na Steam por preços acessíveis.
Para estúdios pequenos, participar de um evento desse porte pode ser uma oportunidade importante de mostrar seu trabalho, conseguir novos jogadores e construir uma comunidade. Mas não adianta reunir esses projetos e colocá-los em um lugar que passa despercebido.
Se a BGS quer continuar sendo uma feira importante para o mercado brasileiro, precisa dar visibilidade não apenas às grandes empresas, mas também a quem está começando. Os jogos independentes não deveriam ser uma atração escondida no mapa: poderiam ser um dos pontos altos da visita.
E, sinceramente, se existe espaço para lojas de segmentos variados e uma praça de alimentação extensa, também deveria existir um esforço para que o público encontre facilmente os desenvolvedores independentes.
O ingresso ficou mais caro. O que o visitante recebe em troca?
O preço é outro ponto que não dá para ignorar.
Para ter uma referência, o Passaporte Camarote foi anunciado por cerca de R$ 2.349 em 2025 e chegou a R$ 2.481 em 2026. Isso representa uma diferença de R$ 132, ou aproximadamente 5,6%. São pacotes premium, com benefícios próprios, e não ingressos comuns. Além disso, os itens incluídos não eram exatamente iguais nas duas edições.
Os valores de ingressos comuns também variam conforme o dia, o lote e o tipo de entrada. Por isso, não seria correto comparar preços isolados como se fossem necessariamente equivalentes.
Mas existe uma questão que vai além da conta: o que o público sente que está recebendo pelo dinheiro investido?
Para quem mora em São Paulo, ir à BGS já pode representar um gasto significativo. Para quem vem de outra cidade ou estado, a conta inclui passagem, hospedagem, alimentação e transporte. Quando o ingresso custa caro, a expectativa é encontrar uma programação que justifique todo esse esforço.
Eu considero a BGS uma espécie de paraíso nerd justamente porque, na minha cidade, não tenho eventos com a mesma dimensão. Poder passar o dia vendo produtos, testando jogos e encontrando outras pessoas com interesses parecidos é algo muito legal.
Mas gostar da feira não significa deixar de questionar o preço. E um pacote premium que chega perto de R$ 2.500 faz a pergunta ficar ainda mais importante: o que, exatamente, torna essa experiência tão especial a ponto de justificar o investimento?
Ainda quero voltar à BGS. Mas quero encontrar uma feira de games
Apesar das críticas, não saí da BGS 2026 achando que tudo foi ruim. Gostei de poder circular com tranquilidade, de conhecer produtos diferentes e, principalmente, de experimentar jogos que ainda não chegaram ao público.
Esses são motivos reais para continuar visitando o evento. E justamente por isso acho importante falar sobre o que poderia melhorar. O que espero é que ela mantenha uma identidade forte e ofereça atrações que justifiquem o investimento do público.
A BGS já conseguiu reunir centenas de milhares de pessoas e apresentar uma grande quantidade de jogos, incluindo títulos antes do lançamento. Os números de 2022 e 2023 mostram que a feira teve edições de grande alcance. Agora, diante das mudanças percebidas em 2026, seria interessante entender como a organização pretende recuperar a presença das grandes empresas e dar ainda mais destaque aos jogos.
Também seria importante ouvir os expositores. O custo de participação está pesando? O calendário é um problema? As marcas estão escolhendo outras feiras? Ou existem mudanças no próprio mercado que tornam esse tipo de investimento menos interessante? Sem respostas, podemos levantar hipóteses, mas não afirmar qual delas explica o cenário.
A feira ainda tem potencial para reunir fãs, apresentar novidades e aproximar o público da indústria. Mas, para isso, precisa olhar com atenção para o que mudou.
A pergunta que fica não é se a BGS precisa voltar a ser lotada. É se ela consegue voltar a ser aquele lugar onde os games são, de verdade, os protagonistas.