Ana andava apressada pela rua, quando viu um brilho. Não era reflexo de vidro, era algo pequeno, rosa, e que reluzia mesmo sem o sol. Aproximou-se. Era uma caneca rosa-claro, com muito brilho e brilhos que lembravam pó de fada.
Estava intacta, como se tivesse acabado de sair de uma loja cara. Ana olhou para os lados. Nenhum sinal de quem poderia tê-la perdido. Era bonita demais para estar jogada na rua. Talvez fosse presente de alguém. Talvez alguém esquecesse…
Chegando em casa, lavou a caneca e a deixou na pia. Esqueceu dela até mais tarde, quando preparava um chá de camomila. Estava cansada do trabalho ou da falta dele. Nos últimos seis meses, vendeu apenas dois carros populares. A comissão mal pagava o aluguel, e as contas começavam a se empilhar.
Quando levou o chá à boca, notou algo curioso. A temperatura era perfeita, e mesmo depois de muitos goles, a bebida não diminuía. “Talvez eu tenha feito demais” Não deu muita atenção. Deixou a caneca sobre a pia novamente e foi dormir.
Na manhã seguinte, ao correr para sair de casa, ela notou algo diferente. Ao lado da caneca rosa, estava um copo azul, também brilhante. Nunca o viu antes. Mesmo tipo de brilho. “Que isso?”, sussurrou. Mas não havia tempo para teorias. Se perdesse o ônibus, perderia também a paciência do chefe.
Ana trabalhava numa concessionária. Vendedores como ela ganhavam comissão por venda, 10% do valor. Com a crise, ninguém mais comprava carro como antes.
Depois de três horas em pé, sorrindo, explicando motores e diferenciais para clientes que só estavam “dando uma olhadinha”, Ana resolveu tomar água. Na copa da empresa, entre os vários copos de plástico, estava o mesmo copo azul brilhante.
Ela olhou, assustada. Como ele parou ali? Não lembrava de tê-lo levado. Perguntou a todos se era de alguém. Ninguém reconheceu. “Deve ser coincidência…”, pensou. Estava com sede. Bebe um. Dois. Três copos de água.
De volta à mesa, Ana é chamada por um cliente. Um homem alto, elegante, bem vestido. Bastam poucos minutos de conversa para que ele feche negócio. Um dos carros mais caros da loja. À vista.
Sem tempo para entender o que acontecia, Ana é abordada por outro cliente. Ela o reconhece: um funkeiro famoso, daqueles que estampam capas de revista. Ele olha os modelos, compara cores, se senta e decide: dois carros de luxo. Sem rodeios.
Ana não conseguia esconder o brilho nos olhos. Tão brilhantes quanto os novos objetos encontrados. O brilho que fazia chá não acabar. O brilho que fazia clientes aparecerem.
À noite, exausta e eufórica, ligou para a mãe. Contou das vendas. Contou do alívio, que conseguiria pagar tudo naquele mês. Até sobraria para comer algo além de miojo e café.
Na cozinha, colocou a chaleira no fogo e encarou os objetos. A caneca rosa e o copo azul estavam novamente ali, como se fossem parte da mobília, como se a tivessem escolhido.
Pegou a caneca, despejou o chá. Novamente, a temperatura ideal, e ele não acabava. Pegou o copo, encheu de água. Observou o brilho:
“Vocês são mágicos, não são?”
O copo brilhou um pouco mais forte. Não respondeu, mas era como se confirmasse.
Naquela noite, Ana sonhou. Estava em um campo de estrelas, com a caneca em uma mão e o copo na outra. Uma voz sem rosto dizia:
“Cada gole abre uma porta. Mas cuidado: toda sorte tem seu preço.”
Ainda assim, nos dias seguintes, continuou usando os objetos. Vendas vieram como nunca antes. Clientes surgiam do nada. Estava feliz e com dinheiro. Finalmente dona da própria vida.
No décimo terceiro dia, não conseguiu largar mais os objetos. Eram seus talismãs. Suas maldições.
Acordava pensando no brilho da caneca. Dormia sonhando com o reflexo do copo azul. Não fazia mais chá em outra xícara, nem bebia água em outro recipiente. Recusava até o cafezinho no trabalho, por medo de quebrar o ciclo da sorte.
Aos poucos, as pessoas ao seu redor começaram a mudar. Os colegas passaram a evitá-la. Os olhares deixaram de ser curiosos e se tornaram desconfiados. Ana não percebia. Estava ocupada demais com suas metas batidas, com os bônus na conta, com as mensagens dos clientes agradecendo o “atendimento maravilhoso”. Tudo o que fazia era trabalhar, ganhar muito dinheiro, comprar coisas desnecessárias, se gabar. E Ana, deslumbrada com o dinheiro e sorte que caiu do céu, esqueceu de quem era.
A caneca brilhava. O copo reluzia. Ana sorria de volta para eles como se fossem amigos.
Naquele dia, fechou o maior contrato da loja em meses. Todos a olharam em silêncio. Ela comemorou sozinha. Na volta pra casa, levou os dois objetos com cuidado, embrulhados no casaco.
Em casa, colocou a caneca e o copo sobre a mesa da cozinha como se fossem relíquias. Abriu uma garrafa de vinho caro, presente de um cliente satisfeito, mas hesitou. “Melhor não arriscar.” Encheu a caneca mágica com chá e o copo com água.
Ana jantou em silêncio. Comprou um prato sofisticado, de um restaurante que sempre achou caro demais. Mas, não reparava no gosto da comida. Estava distraída demais, observando os brilhos dos objetos.
No dia seguinte, passou o dia tentando vender, mas nenhum cliente comprava um carro. Pela primeira vez em duas semanas, ninguém se interessou. Uma colega comentou algo como: “Cuidado com o que deseja, né?”
No dia seguinte, novamente nenhum cliente. No terceiro dia, ela tentou usar os objetos no trabalho, mas eles não brilhavam mais como antes. O chá esfriava. A água tinha gosto metálico. O feitiço parecia desbotar.
Foi então que entendeu: não era sobre vender, nunca foi. Ana esqueceu de quem ela era. Deixou as pessoas para trás e passou a gostar mais das coisas que comprava, mudou de comportamento.
Naquela noite, Ana colocou a caneca e o copo no fundo de uma gaveta. Não teve coragem de jogar fora. Mas também não os queria mais perto. Fez chá em uma xícara comum. Bebeu devagar, em silêncio.
Na manhã seguinte, saiu de casa sem os objetos. Pegou o ônibus cheio, segurando-se com uma mão e com a outra levando seu café no copo de plástico, brinde de mercantil de 1 ano atrás.
Na loja, um cliente hesitou em comprar. Ana sorriu, escutou com atenção, explicou com paciência. Não fechou negócio, lembrou de meses atrás e o receio de voltar a fazer dívidas.
Ao fim do dia, ninguém a parabenizou. Ninguém a invejou. Naquela noite, os objetos permaneceram guardados. Talvez até o dia em que Ana precisasse lembrar que sorte não substitui quem se é.