A gente cresce ouvindo que, quanto maior o poder aquisitivo, melhor é o tratamento. Que as coisas mais caras são melhores. Que, quando você finalmente experimenta alguma coisa cara, entende por que aquilo custa tanto.
Eu sempre achei essa conversa meio suspeita. Até pintar o cabelo em um salão chique.
Foi uma dessas decisões completamente impulsivas. Eu estava andando pelo shopping, com uma tinta de cabelo na bolsa, porque já estava há tempo demais enrolando para pintar o cabelo. Passei em frente ao salão e pensei: quer saber? Vou pintar agora.
Entrei.
— Quanto é a pintura?
Me disseram o valor.
— Tá. Posso pagar.
— E a hidratação?
— A partir de R$ 80.
— Tá. Posso pagar também.
E foi assim que uma simples pintura de cabelo, que na minha cabeça seria entrar, pintar e ir embora, virou pintura, hidratação, corte e escova.
E eu deixei.
Talvez porque, depois de tantos anos fazendo conta antes de gastar com qualquer coisa, exista um prazer específico em, de vez em quando, simplesmente dizer: “tá, eu posso pagar”.
Começou pela tinta. Como meu cabelo era vermelho, eu já estava preparada para aquela experiência traumática de sentir tinta escorrendo pelo rosto, mas a cabeleireira foi cuidadosa. Fez uma massagem bem leve na cabeça, sem ficar esfregando meu rosto, sem transformar o processo em uma batalha contra a tinta.
Depois veio o corte.
E aqui preciso confessar uma coisa.
Poucos meses antes, eu tinha cortado o cabelo em um salão especializado em cabelos cacheados. Gostei. Foi uma experiência pensada justamente para o meu tipo de cabelo.
Mas naquele salão chique, o corte ficou melhor.
Pronto. Falei.
E não foi só o corte. Meu cabelo ficou tão macio que eu comecei a me perguntar se aquilo era simplesmente o poder da Kérastase.
Eu sempre digo que, quando melhorar minhas condições financeiras e tiver dinheiro sobrando, vou experimentar Kérastase.
Talvez eu finalmente tenha descoberto por quê.
Mas o que mais me chamou atenção não foi nem o cabelo. Foi o ambiente.
No salão de bairro, aquele salão simples, onde a gente costuma ir porque é perto, cabe no orçamento e a profissional já conhece nosso cabelo, existe uma coisa que quase sempre vem no pacote: conversa.
E fofoca.
Você mal senta na cadeira e já começa o interrogatório.
É casada? Trabalha com o quê? Mora onde? Tem filhos? E seu marido? E aquela vizinha? E fulana?
Às vezes você só queria cortar a franja e sai sabendo da vida de três famílias.
No salão chique, não. Ninguém queria saber da minha vida.
As perguntas eram objetivas.
Como você gosta do seu cabelo? Que produtos você usa? O que você quer fazer?
E pronto.
Talvez isso também seja um luxo. A privacidade.
Ninguém está interessado em descobrir quem você é além do necessário para fazer o serviço.
Até a música parecia dizer que eu estava em outro mundo. Tinha aquela coisa de cantor e violão, piano, uma música ambiente discreta. A iluminação era diferente. As paredes eram claras. As cadeiras eram confortáveis. Parecia que até a lâmpada era mais cara.
E foi aí que comecei a pensar que talvez a diferença entre um salão simples e um salão caro não esteja apenas na tinta, no shampoo ou na tesoura.
Está na experiência.
Você não paga apenas pelo produto que colocam no seu cabelo.
Paga para não ter pressa. Paga para ser atendido com calma. Paga pelo ambiente. Pelo silêncio. Pelo conforto. Pela privacidade. Pelo cuidado.
E talvez seja por isso que a frase “não é qualquer pessoa que paga R$ 500 para cuidar do cabelo” faça tanto sentido.
O dinheiro não está indo apenas para o cabelo. Está indo para tudo que acontece enquanto cuidam dele.
E eu comecei a perceber que isso não acontece só no salão.
Em outra ocasião, fui a um evento de intercâmbio que aconteceu em um hotel chique. Depois do evento, resolvi jantar no restaurante do próprio hotel.
Eu poderia simplesmente ter ido embora e procurado um lugar mais barato.
Mas pensei: estou aqui. Vou abrir uma exceção.
E foi uma dessas exceções que viram memória.
O som do piano. A mesa confortável. As cadeiras confortáveis. O garçom que não fica em cima de você o tempo inteiro. As bebidas refrescantes. Um sanduíche que, apesar de não ser exatamente barato, estava delicioso. E a sobremesa… Meu Deus.
Eu nunca tinha comido nada igual.
Naquele momento, entendi uma coisa que talvez eu não quisesse entender.
O poder aquisitivo compra acesso.
Acesso a lugares mais bonitos, mais tranquilos, mais confortáveis. A experiências que parecem banais para quem pode pagar por elas todo mês, mas que para quem precisa escolher onde gastar o dinheiro podem virar acontecimentos.
Eu não posso jantar naquele restaurante toda semana. Nem gastar R$ 500 no cabelo todos os meses sem fazer conta.
Mas agora eu entendo por que alguém que pode fazer isso talvez não queira voltar para determinadas experiências.
Porque depois que você descobre que existe um lugar onde ninguém pergunta da sua vida, onde a cadeira não machuca suas costas, onde o garçom deixa você conversar em paz e onde até a iluminação parece mais bonita…
fica difícil fingir que é tudo a mesma coisa.
Talvez o dinheiro realmente compre coisas melhores. Ou talvez ele compre a possibilidade de escolher como você quer ser tratado.
E, sinceramente? Eu sempre achei que, quando tivesse dinheiro, compraria coisas melhores.
Agora descobri que também quero comprar silêncio, conforto, uma boa sobremesa, uma massagem no couro cabeludo e um cabelo absurdamente macio.
Talvez eu tenha nascido com alma de gente rica.
Só esqueceram de colocar o dinheiro junto.
Porque, por enquanto, continuo sendo uma pé-rapada com sonhos de Kérastase.